Durante uma crise de ansiedade, o cérebro interpreta uma situação como uma ameaça — mesmo que ela não represente perigo real — e aciona mecanismos primitivos de luta ou fuga. Esse processo envolve várias regiões cerebrais e desencadeia reações físicas intensas. Veja o que acontece:
Ativação da amígdala
A amígdala cerebral, responsável por detectar ameaças, é uma das primeiras a ser ativada. Em uma crise de ansiedade, ela entra em hiperatividade, interpretando estímulos comuns como perigosos.
Nessas situações, o cérebro reage como se estivesse diante de um risco real, mesmo quando não há ameaça concreta. A amígdala, região responsável por identificar o perigo, entra em estado de hiperatividade e dispara um alerta para o restante do corpo.
“A amígdala funciona como um alarme. Em pessoas com crise de ansiedade, ela interpreta situações comuns como ameaçadoras e aciona o sistema de resposta ao estresse”, explica a neurologista Caroline Santos, do Hospital Santa Lúcia, no Gama, em Brasília.
O hipotálamo, então, entra em ação ativando o sistema nervoso autônomo, que prepara o organismo para lutar ou fugir. Enquanto isso, o córtex pré-frontal, que ajuda no raciocínio e no controle emocional, reduz sua atividade, o que dificulta o pensamento lógico e aumenta a sensação de descontrole.
Já o hipocampo, que ajuda a interpretar a realidade com base em memórias, pode contribuir para que o cérebro enxergue perigo onde não há.
Hipotálamo e sistema nervoso autônomo
A amígdala envia sinais ao hipotálamo, que aciona o sistema nervoso autônomo, especialmente a parte simpática, responsável pela resposta de emergência. Isso leva à liberação de hormônios do estresse, como:
- Adrenalina
- Cortisol
Efeitos físicos no corpo
Esses hormônios causam respostas físicas imediatas:
- Aumento da frequência cardíaca
- Respiração acelerada ou ofegante
- Sudorese
- Tensão muscular
- Tontura ou sensação de desmaio
- Sensação de sufocamento
- Tremores
- Náusea ou dor abdominal
Circuito de retroalimentação
O cérebro continua a monitorar o corpo. Se percebe esses sintomas físicos (ex: coração acelerado), pode interpretá-los como mais uma ameaça, o que intensifica a crise — é um ciclo difícil de quebrar sem intervenção.
Desregulação do córtex pré-frontal
O córtex pré-frontal, responsável pelo pensamento racional e pelo controle da emoção, fica menos ativo durante a crise. Isso dificulta a capacidade de avaliar logicamente a situação ou se acalmar.
Resumo:
Durante uma crise de ansiedade, o cérebro entra em estado de alerta máximo, mesmo sem perigo real. O corpo reage como se precisasse fugir ou lutar. Essa resposta é útil em situações reais de risco, mas prejudicial quando ocorre sem motivo aparente.
Técnicas de respiração e relaxamento
Como funcionam:
- A respiração lenta e profunda ativa o sistema nervoso parassimpático, responsável por acalmar o corpo.
- Isso reduz a frequência cardíaca, a tensão muscular e a liberação de adrenalina.
No cérebro:
- Ao reduzir os sinais físicos de estresse, a amígdala recebe menos “alertas” do corpo.
- O córtex pré-frontal (razão) tem mais espaço para recuperar o controle emocional.
Quebra o ciclo da retroalimentação entre corpo e mente que mantém a crise ativa.
Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
Como funciona:
- Ensina a identificar pensamentos automáticos e distorções cognitivas que disparam a ansiedade.
- Ajuda a reprogramar a resposta emocional a certos gatilhos.
No cérebro:
- A TCC fortalece as conexões entre o córtex pré-frontal (razão) e a amígdala (emoção).
- Com o tempo, isso reduz a sensibilidade da amígdala e melhora o controle sobre reações impulsivas.
É como ensinar o cérebro a reinterpretar o perigo de forma mais realista.
Medicamentos ansiolíticos ou antidepressivos
Como funcionam:
- Atuam sobre neurotransmissores como serotonina, GABA, noradrenalina e dopamina, que regulam o humor e o nível de alerta.
- Alguns aumentam a atividade inibitória do GABA, que “freia” o sistema de alarme cerebral.
No cérebro:
- Diminuem a hiperatividade da amígdala e do sistema límbico.
- Restauram o equilíbrio químico e aumentam a sensação de controle e segurança.
Importante: só devem ser usados com acompanhamento médico. São eficazes, mas não substituem a terapia.
Exercícios físicos
Como funcionam:
- Liberam endorfina e serotonina, que melhoram o humor e reduzem o estresse.
- Ajudam a regular o sistema nervoso e a “gastar” a adrenalina em circulação.
No cérebro:
- Diminuem a reatividade da amígdala.
- Aumentam a resiliência mental e a plasticidade neural — ou seja, o cérebro aprende a lidar melhor com o estresse.
Atenção plena (mindfulness) e meditação
Como funcionam:
- Treinam o cérebro para focar no momento presente, em vez de ficar preso a pensamentos catastróficos.
No cérebro:
- Reduzem o volume da amígdala (com prática constante).
- Fortalecem o córtex pré-frontal e o córtex cingulado anterior, envolvidos no controle emocional.