#Blogdopa, Corrida contra o tempo: No DF, 962 pessoas aguardam por transplante de órgãos

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Com uma queda 91% nas doações em todo o Brasil, 45 mil pessoas no país aguardam na fila da cirurgia por uma nova chance.

A pandemia paralisou diversas atividades ao longo do último um ano e meio. No entanto, para quem depende de transplante de órgãos para continuar vivendo, a espera não parou. No Distrito Federal, atualmente, 962 pessoas estão inscritas na fila para a cirurgia, pacientes que voltam a ter esperança com a regularização dos atendimentos que estavam suspensos ou remanejados — durante o período agudo da crise sanitária — mas dependendo de doações, que também foram impactadas com pandemia, uma redução de mais de 90% em todo o Brasil, conforme estimativa do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

Desde setembro, a capital federal tem mantido uma média de 50 a 60 transplantes por mês (veja quadro). Segundo dados do InfoSaúde, disponibilizados pela Secretaria de Saúde, entre janeiro e agosto, foram 448 procedimentos realizados, um aumento de 42,2% em comparação ao mesmo período de 2020, que teve 315 pessoas transplantadas.

Para quem está numa fila que todos os meses recebe novos inscritos, esse alento é possível graças ao avanço da vacinação contra covid-19 e a liberação de leitos na rede pública e privada. Nos primeiros oito meses deste ano, o sistema de regulação de transplantes registrou mais 615 pacientes inscritos no DF. Uma alta de 47,1% em relação ao mesmo período de 2020. A maior demanda é para o transplante de rim, com 523 brasilienses à espera.

Embora com capacidade para diversos procedimentos, o baixo número de doadores é um gargalo para as equipes. Em termos de procedimentos, Brasília oferta transplantes do coração, rim, fígado, córneas, medula óssea e tecido ósteo-condro-fascio-ligamentoso — sendo este último apenas na rede privada. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o Hospital de Base e o Hospital Universitário de Brasília realizam procedimentos de rim e córnea, já o Instituto de Cardiologia do DF (ICDF) faz transplantes de coração, rim, fígado, córnea e medula óssea. Outro centro de referência é o Hospital da Criança de Brasília José Alencar, que realiza transplante de medula óssea autólogo pediátrico, coletado do próprio paciente.

Para Daniela Salomão, médica da Central de Captação de Órgãos da Secretaria de Saúde, esse aumento é um reflexo do comportamento da população no último ano. “No ano passado, vivemos um momento atípico, com as pessoas indo menos aos hospitais. Isso gera um impacto. Agora, com a retomada de muitas atividades, começamos a ver essa demanda crescer”, explica. Infelizmente, a oferta de órgãos está abaixo das necessidades. “É uma realidade mundial, sempre ter pessoas na fila aguardando um transplante. É muito complicado equalizar isso. Mas é importante incentivar e conscientizar a população a doar. Esse ato pode salvar a vida de uma pessoa”, afirma.

A professora Ilka Boin, que compõe o Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), destaca a queda nas doações de órgãos no país. De acordo com ela, esse fluxo é medido pela associação por parte de milhão — o chamado PPM, ou seja, a quantidade de pessoas que, em torno desse milhão, doaram algum órgão.

“Antes da pandemia, esses números estavam acima de 18, e a expectativa era de superarmos a marca em 2021. Agora, houve uma queda para 15, e acreditamos que levaremos de dois a três anos para chegarmos ao número almejado, que era 21”, pontua. Neste mês de setembro, foram iniciadas algumas formas de enfatizar e incentivar a doação de órgãos. “Hoje temos muitas pessoas em lista de espera, são mais de 45 mil pessoas esperando no Brasil. Somos capazes de realizar os transplantes necessários, além de minimizar e equacionar esse número de transplantes para todos os brasileiros, mas precisamos aumentar o número de doadores”, afirma a professora.

Gesto de amor

Lidar com o diagnóstico e enfrentar a sentença de “transplante” não é fácil. Aos 55 anos, o aposentado Antônio Mendes Vieira recebeu a notícia de que precisava de um novo rim para sobreviver. Em 2019, após quatro anos tratando um quadro de hipertensão, a alteração em seus exames de rotina e análises mais detalhadas identificaram o mau funcionamento dos rins e trouxeram como solução temporária a hemodiálise. “Quando o médico mostrou o equipamento, quase não entrei na sala. Achei que seria o fim, que estava perto de morrer”, lembra o professor.

Com o início do tratamento, em junho de 2020, Antônio entrou na fila de espera para o transplante. “Eu esperava receber o rim de um doador falecido, mas meus irmãos, primos, filhos, esposa, todos se prontificaram para me ajudar e doar”, relata. “Como os hospitais não estavam fazendo o transplante por conta da covid-19, só consegui marcar para este ano”, conta. Dos seis irmãos, quatro foram 100% compatíveis. A irmã Josefa Mendes Vieira de Sousa, 48, foi a escolhida para ser a doadora. Em 15 de julho, os dois se submeteram ao procedimento que mudou completamente a vida de ambos.
“Eu sou muito grato pela minha irmã, por esse gesto de amor. Graças a ela tenho a possibilidade de uma vida nova, uma vida sem depender de aparelhos (hemodiálise)”, ressalta. Antônio conta que o apoio da família durante todo o processo o ajudou a encarar o desafio. “Gostaria de motivar as pessoas a aderirem a proposta de doação de órgãos, para que os necessitados tenham esperança que chegará a vez de receber um órgão, seja por um doador vivo ou falecido”, reforça

Com um desejo antigo de ser doadora de órgãos, Josefa afirma que foi emocionante ajudar o irmão. “Fiquei muito feliz. Antes mesmo de me falarem sobre o resultado dos exames de compatibilidade, eu sentia que seria eu”, assevera. De acordo com ela, depois de 15 dias de operada, nem parecia que tinha doado um rim. “Minha vida está a mesma que era antes, depois de um mês, já voltei para a academia. Foi bem tranquilo”, finaliza.

Para o aposentado Euvaldo Marques, 68, a espera por um rim novo demorou um pouco mais. Ele entrou na fila de espera em julho de 2017 e só recebeu a notícia de que havia um órgão compatível com ele em março deste ano. “Em uma noite, eu estava muito triste e, de repente, tocou o telefone. Eu tinha que ir para o hospital imediatamente para ser internado, pois havia chegado um rim para mim”, rememora.

Paciente de hemodiálise, Euvaldo relata que estava muito debilitado e com a imunidade baixa. O transplante trouxe mais qualidade de vida. “É como se eu tivesse recebido a vida. Sinto o meu corpo fortalecido, diferente do que era antes”, orgulha-se. E a primeira coisa que Euvaldo fez ao ter um rim novo foi tomar um sorvete bem gelado e aproveitar o sabor, algo que não fazia há anos.

Dois aniversários

O ano de 2020 foi marcado por muita dor e tristeza para Elaine Cristina Macedo Grisóstomo, 44. No início do ano, ela perdeu a mãe e, em plena pandemia, recebeu o diagnóstico de leucemia. Com uma filha de quatro anos, ela temia pela própria vida. “Além do diagnóstico de câncer, o meu caso era um pouco pior, pois meu cromossomo sofre um tipo de mutação em que é necessário um transplante de outra pessoa”, relata.

Debilitada com o avanço da doença, ela contou com o apoio dos irmãos. Dos sete, seis fizeram o exame para doar a medula para a caçula, o sétimo não pôde por ter contraído a covid-19 na época. Três irmãos foram compatíveis 100%, e o mais novo foi escolhido como doador. “Foi emocionante o dia em que fui transplantada, o meu irmão estava no quarto ao lado e nos vimos através do celular, pelas fotos que as enfermeiras tiravam”, conta.

Para ela, todo o processo teve uma carga ainda maior, pois só pensava na filha pequena que não poderia ter a chance de cuidar caso o transplante não fosse bem-sucedido. “Passei 10 anos para conseguir engravidar, e a possibilidade de não poder acompanhar o crescimento dela me assustou”, relata. “Eu acordei um dia e estava com leucemia. A vida é muito curta. Eu ganhei mais uma chance de viver. Eu nasci de novo em 27 de maio de 2021, agora, tenho duas datas de aniversário”, conta.

Hospital de Base

A realidade das cirurgias de transplantes na capital se consolidou na década de 80, com o programa fundado pelo médico Luiz Ronaldo Vieira. O urologista conta que tudo começou em 1976, quando o chefe e colega de trabalho iniciou um programa de transplante no Hospital Universitário de Brasília (HUB). “Em 1981, ele faleceu, e o programa de transplantes acabou. Na época, eu trabalhava no Hospital de Base, e a equipe de lá abraçou a ideia de criar um serviço de transplante na unidade hospitalar”, afirma.

De acordo com Luiz, no início só se faziam transplantes de rins de doadores vivos. O primeiro ocorreu em 23 de setembro de 1983. “Pacientes de fora de Brasília vinham para cá para serem transplantados. Fomos precursores aqui no DF, depois surgiram os transplantes de pessoas falecidas, o que aumentou a possibilidade de atuação de outros procedimentos”, ressaltou o médico.
De acordo com ele, a demanda pelo transplante de rim aumentou, nos últimos anos, e representa a maior demanda por órgãos. Para o médico nefrologista do Hospital Brasília Pedro Mendes de Oliveira Filho, a alta na lista tem influência nas doenças que comprometem o funcionamento dos rins, como hipertensão e diabetes.

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